Apesar de ser um pouco desagradável depender de ônibus para o transporte, de horários e itinerários alheios a nós e outros contratempos típicos, existe, sim, uma coisa que me parece boa nisso e graças a ela já não consigo encarar essa rotina sem um sorrisinho: percebi, meio que espantada com o óbvio, que passo a ser obrigada ao contato, porque não há ali os muros do isolamento tão bem erguidos a medida que subimos na escala social. Os outros, estranhos, estão agora bem aqui, tão perto. Gente de todo tipo ao redor, olhares com toda espécie de intenção, gestos, trejeitos, cheiro, calor e as inúmeras situações, algumas delas inusitadas, que passa-se a testemunhar diariamente.
Me chama a atenção, por ora, esse contato, a quebra da minha redoma, aquele campo de força a que o veículo particular nos serve bem. E eu já estava bem acostumada à minha pequena torre de marfim construída com diversos tijolos, dentre os quais um carro próprio, que junto a alguns outros me distanciavam da maioria das pessoas, esse grupo indistinto que chamamos "povo", sempre nos excluindo dele. Já estava acreditando que eu era outra, separada, diferente e, por que não?, até mesmo superior. Hm...
Esquecia que eu não posso ter aversão ao contato ou receio de ser como "eles" ou mesmo de ser apenas mais uma, porque simplesmente é isso que sou.
Bem-vinda ao lotação.