domingo, 27 de março de 2011

março


O mês voou. Não consegui deter em palavras o que acontecia. Vim várias vezes escrever e era tanto que nada saía. Tanto movimento, o mundo girando, o meu mudando, o congestionamento, o olhar brilhando, os pés correndo, um turbilhão. Gentes que puxam assunto, que sentam ao lado, que mantém contato, que surgem em sonhos, que surgem na esquina, que aconselham, sorriem e fazem bem. Planos, projetos, objetivos. Dando novo nome aos sonhos à procura do que é concreto.
Tudo é importante, mas o que é prioritário? Essa a escolha mais difícil - decisão de cada instante - porque é renúncia de todo o resto e eu ainda não sei dizer não.
A vida em cores fortes.
Bola pra frente.

quarta-feira, 9 de março de 2011

do amor


eu tenho um jeito de amar meio esquisito. de me dar demais, de querer demais, de querer tudo. disfarço, me contenho, me censuro, mas no fundo é assim, toda a intensidade possível flertando com a loucura o tempo todo. sofro, não sinto paz.
por isso um dia eu não quis me apaixonar nunca mais, na tentativa de evitar tanto tumulto interno. achava que eu poderia só amar devagarzinho, construindo o sentimento tijolo por tijolo, mas não deu muito certo. ainda não deu.
não desisti, não. esse rio que corre apressado derrubando margens há de ter um leito fundo e sereno, o de amar em paz.

sexta-feira, 4 de março de 2011

entrelinhas IV

Manhã de sábado

Estou sentindo um clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou, por assim dizer,
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano,
já me aconteceu antes.

Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto
amém.
(A Lucidez Perigosa, Clarice Lispector)


(fevereiro/2006)