domingo, 21 de outubro de 2007

Trabalho

Que o trabalho dignifica o homem eu já sabia. E acreditava. E quando comecei a trabalhar pude comprovar a máxima com muita clareza. É algo como um orgulho por pertencer, então, à população economicamente ativa do país, os que contribuem (numa visão bem reducionista do que é contribuir para o mundo). Um sentimento bem infantil até, como o da criança feliz por ter ajudado a mãe a fazer o bolo e varrer o chão. A criança que eu sou. Ser útil em algo que vai além do nosso universo particular, participar de algo maior que funciona (se bem ou mal, se para o bem ou para o mal não vêm ao caso, porque se puxar o fio solto dessa meada é bem provável que se desfaça todo o prazer a que me referia, porque então seria o adulto a entender pra sentir), conseguir ser uma pecinha na engrenagem que faz a roda gigante* girar. Deve ser isso que leva alguém a bater no peito e dizer, seguro de si, "sou eu que pago as minhas contas". A autonomia, a independência. Mas não falo só do trabalho remunerado. Nem exclusivamente de causas nobilíssimas, de trabalhos vocacionados, de 'grandes missões'(com e sem aspas) pela humanidade. Falo de trabalhar genericamente, a ocupação com qualquer coisa que extrapole a nós mesmos, os nossos interesses pessoais diretos, com responsabilidade, compromissos, tarefas, etc.
Só depois de algum tempo trabalhando eu me dei conta de mais que isso. Percebi - talvez aqui eu tenha que falar anda mais particularmente - o quanto o trabalho saneia a mente. E edifica. Esta obrigação de sair do meu mundo pessoal para atender a interesses alheios, a necessidade de estar ativa e atenta à minha ocupação nos momentos de atividade laboral, de interagir, enfim, de estar fora de mim é capaz de, ao menos por instantes, desanuviar meus pensamentos, de abrandar minhas dores secretas e clarificar a paisagem nebulosa à minha frente. E dali, geralmente, saio melhor, ainda que muitos outros fatores relacionados ao trabalho(como remuneração, equipe, chefia, ambiente...) possam não ser totalmente favoráveis a mim todo tempo. Porque minha constante é precisar sair um pouco de mim pra estar melhor, para equilibrar-me.
E tudo isso só me dá mais um motivo pra sonhar ainda mais com o momento da minha vida em que terei a chance de dedicar-me a algo com que eu realmente me identifique e possa exercer, naquele ofício, a minha vocação apaixonadamente.


"No suor do teu rosto comerás o teu pão" Gen 3:19. Era mesmo para ser uma benção. Ele quis assim desde o princípio. Obrigada.

*"Como se eu estivesse por fora do movimento da vida. A vida rolando por aí feito roda-gigante, com todo mundo dentro, e eu aqui parada, pateta, sentada(...) Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá, rodando junto com eles nessa roda idiota(...)"
(trecho do conto A dama da noite, de Caio Fernando Abreu, com seus muitos outros sentidos)

sábado, 20 de outubro de 2007

Sonho de esfinge

Intimidade. Privacidade. Desde que percebi que não me sentia bem quando vista, conhecida(supostamente) e, por consequência, pensada, provavelmente julgada e analisada por outros olhos, passei a tentar me preservar. Sinto-me segura guardada em mim, sendo só minha. Gosto de ser meu segredo. Como se só aqui fosse ou pudesse ser o meu lugar, ainda que muitas vezes desconfortável. O contrário, expôr-me, quase me apavora, é como estar nua diante de todos, é desconcertante, é mesmo incômodo, aflitivo, vexatório até. De modo que eu tento ficar sempre mais dentro de mim do que fora e lanço mão de todos os expedientes que tenho ao alcance para evitar a exposição, para evitar que me vejam, me saibam. Sim, ter um blog parece uma contradição, mas só parece. É um exercício, por ser espelho, e é também um encontro.
Infelizmente, há momentos em que eu me escapo, coisas que me denunciam sem eu querer. Todos nós nos denunciamos o tempo todo, eu sei. Como conviver sem expôr-se minimamente? Impossível. Ainda assim, vivo tentando aprimorar esta 'arte', na qual me iniciei há algum tempo(porque antes, bem antes, eu me escancarava mesmo) e por isso, algumas vezes, sem intenção, entrego-me facilmente. É verdade que nem sempre há gente ao redor tão atenta ao que deixo escapar como eu estou atenta ao rastro que deixam de si mesmos por onde passam e ao meu próprio. Não importa, me irrita ter errado, me contrariado, não ter evitado, não ter-me pensado melhor antes de ser em público. Me irrita e me preocupa seriamente ter-me entregado, mesmo que num detalhe (não, eu não subestimo os detalhes, sempre os mais delatores!). Na verdade, me amedronta.
No entanto, contraditoriamente, eu sinto uma imensa vontade, um profundo desejo de me dar, de me revelar. Sinto-o fortemente. E esse é o meu amor: querer pertencer inteiramente, entregar todo meu ser e permitir ser conhecida inteira como sou, sem disfarces, sem máscaras, sem enfeites. Sonho esta liberdade de estar de alma nua sem receios, sem preocupação, sem temores, sem armaduras.
Doar-me e revelar-me é meu jeito de amar alguém. Dedicar-me inteiramente a uma causa, a uma missão, é meu jeito de amar a vida. Não ser mais minha, entregar-me, esquecer-me, é como amo a Deus.
Se o que sou em sonhos, expectativas, lembranças, sentimentos, pensamentos, forma e conteúdo, é tudo que tenho, esse é, então, o meu tesouro e por isso o guardo com todo cuidado. Estudo-o, burilo-o, protejo-o. É só que tenho a oferecer. Não deve ser dado nem mesmo mostrado a qualquer um que passe ou esteja ao redor. É meu. Não me desperdiço.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

As pedras

O que tira a paz são as perguntas. Mil perguntas! Um milhão. Infinitas, inesgotáveis. Acerca de tudo. Ah, vida! E sem respostas. As vezes me canso de tanto querer saber, de tanto precisar entender. De onde vem isso?(mais perguntas) E onde encontrar as respostas? Essa a questão fundamental. Ler mais? Observar? Estudar? Orar? Esperar?
Hoje há um congestionamento aqui. Não consigo nem me expressar como gostaria.
Ordem nenhuma, sou o caos.
É que minhas interrogações tornam-se pedras no caminho, por vezes enormes, que atrapalham muito a jornada, quase a interrompem. Senda pedregosa... Mas quero seguir.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Eu, inesperadamente alegre hoje.
Sem entender como, fizeram-me feliz pequenas coisas do dia. Ou não. Porque foi tudo igual, como muitas outras segundas-feiras. Foi aqui dentro, assim, sem motivo, sem razão. De repente, pareceu tão fácil ser feliz. Será mesmo? Satisfação em viver. Foi isso. Gratidão.
E ainda assim, ouvi-me todo o tempo - de modo bem discreto para não perturbar minha alegria tão pacífica e serena de hoje - a duvidar deste bem-estar súbito e a garantir que ele é passageiro, altamente volátil. Ouvi-me, mas continuei a sorrir por dentro. E viver parecendo tão simples, tão fácil...
Foi esta sensação de facilidade que me fez alegre ou foi a alegria que me fez achar mais fácil a vida?
O que determina o que? Resposta para eu ser.
Ser feliz é uma escolha, sempre digo isso. E ser vítima das circunstâncias é auto-comiseração. Minhas frases feitas. Minhas verdades esquecidas, desconhecidas. Minhas desverdades.
Coração criança.

domingo, 14 de outubro de 2007

O querer e o efetuar

Eu acordo todos os dias com a boa intenção de fazer o melhor. O meu melhor. Acordo todos os dias ciente da nova velha batalha que será aquele dia. Por isso, às vezes, já acordo cansada. Mas levanto e recomeço a viver. E na maciça maioria dos dias da minha vida, momento a momento vou perdendo as pequenas lutas que preciso travar contra mim. Fujo, me escondo, me nego. Páro. Outras poucas vezes perco bravamente. Quantas vezes venço? (...)
Estou na metade do dia de hoje, ainda há lutas pela frente e percebo que minha boa intenção é só uma intenção, só uma idéia, um desejo anêmico de ser o que não sou. Não resulta em ação, em fruto, em movimento em prol de mim. E não é egocentrismo ou coisa que o valha eu querer tanto o meu melhor, eu almejar, ainda que infrutiferamente, extraí-lo de mim. Ser melhor é também minha contribuição ao mundo, é minha dívida com Deus, comigo mesma.
Então o que me falta? Por que não germina em mim esta semente?
Coração estéril.

sábado, 13 de outubro de 2007

Por que um blog?

Há algum tempo tenho me feito esta pergunta e ainda não sei bem como respondê-la.
Porque expressar-se não é a dúvida. É necessidade vital. A questão trata do meio. Por que expôr na web o que sempre pude escrever em cadernos meus, só a mim?
Sinceramente, não sei por quanto tempo isso vai durar...
Por ora, quero apenas esvaziar-me.
Coração incerto.