sábado, 29 de janeiro de 2011

sou a herança

A mãe voltou de viagem hoje, depois de 20 dias no Rio com a vó, que estava hospitalizada. Acabou de ir dormir depois de conversarmos por 3 horas madrugada adentro. Rimos, choramos, esboçamos planos para amanhã e para o ano.
Faz tempo que ela tem viajado com frequência, mas dessa vez foi diferente pra mim (e também pra ela, mas por outros motivos). Primeiro porque, diferente de outras vezes, em que eu apenas amava ficar sozinha, eu senti muito a falta dela dessa vez. Em diversos momentos eu realmente quis, pela primeira vez, que ela estivesse aqui para eu poder chorar as minhas dores no seu colo, mesmo que fosse para ouvir o conselho mais óbvio. Sempre afogo as mágoas em silêncio e a mãe não costuma ser lembrada por mim nesses momentos. Acho que foi a primeira vez que, além de reconhecer que ainda preciso, eu quis a ajuda dela.
Mais: foi a primeira vez que senti como imperativo o desejo de retribuir a ela todo o cuidado, todo o desvelo, toda a dedicação, tudo o que ela fez e faz por mim. Pela primeira vez o amor pela minha mãe, e por tabela, pelo meu grande e quase distante pai, me fez querer sair do meu buraco sem fundo. Foi a primeira vez que esse vínculo foi, dentro de mim, o único fio restante e forte o suficiente que me religou à vida. A primeira vez que eu quis ser apenas por causa deles. Como se no resultado final de toda a matemática existencial restasse apenas essa dupla.
Então, me dei conta: parece que já fiz totalmente as pazes com eles. O perdão.

Mais uma obra silente e misteriosa de Deus.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

tapa*

"Acho que o desejo de viver uma vida significativa é universal. Para algumas pessoas, é trabalhar para atingir um objetivo. Para outros, é aproveitar todos os minutos de cada dia. Então, o que realmente significa viver plenamente? Talvez lutar para ganhar um prêmio Nobel e praticar skydiving sejam apenas dois lados da mesma moeda. Para mim, não, viver plenamente não tem a ver com conquista e recompensa. Tem a ver com saber que você tentou atingir, com o corpo e a mente, os limites de seu potencial.  Você sente quando está correndo, e quando a música que você praticou durante horas finalmente ganha vida sob os seus dedos no piano. Você sente isso quando encontra uma ideia que muda sua vida, e quando faz, por conta própria, algo que você nunca se julgou capaz de fazer. Se eu morresse amanhã, morreria com o sentimento que vivi toda a minha vida em 110%."
Sophia, 18 anos, filha de Amy, a mãe-tigre.

*porque pra mim ela resumiu muito bem tudo. o problema, e por isso o tapa, é que se eu morresse amanhã...

pergunta que não cala

vivendo os dias só em pensamento. nada se converte em ação.
e dos pensamentos, mais perguntas, novas suspeitas.
sobre mim, continuo pensando na hipótese da alta expectativa ser o problema originário, embora não único. percebi que ela existe com relação a tudo e como é difícil para mim abandoná-la. em tudo estão os sonhos mais altos, a esperança de resultados e fins quase perfeitos. e talvez por isso aterrorizantes.
se eu apenas me planejasse para o mínimo... apenas ir à aula e estudar em casa, apenas passar de ano, apenas ter e manter meu trabalho e um salário, apenas ir à igreja, apenas orar e ler a Bíblia, apenas estar presente quando devo, apenas participar. se eu não esperasse ser brilhante ou quase perfeita e dar orgulho aos pais e ao Pai, se eu não quisesse tanto, talvez eu conseguisse. se aquela* pergunta do pai não me assombrasse...






*na vida você vai querer estar no palco ou na platéia?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Estranhos

Estranhos parecem gostar de mim. Sorriem, me aprovando. Me cumprimentam e esperam minha retribuição.
No ônibus, ao passarem por mim na calçada, ao pararem o carro ao lado no semáforo, nas filas, nos mercados, lanchonetes, etc.
Talvez seja assim porque eu não os encaro com estranheza. Apenas olho, como se já os conhecesse.
É que depois de algum tempo a gente entende que muito menos do que imaginamos nos separa uns dos outros. Somos iguais.
E toda vez que os olho, estão me olhando. Olham, olham, olham pra mim.

Me fazem sentir o mundo amistoso.
Então, dizê-los "estranhos" me soa um erro.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

mais uma

"Comece simplesmente, de onde você está. 
Não existem pontos de partida."


Essa merece ir para o espelho e virar mantra.
E isso aqui já virou um blog de autoajuda. :-p

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

as coisas bonitas

ontem à noite saí de casa meio sem rumo. eu só queria sair mesmo, o que tenho feito pouquíssimo, dirigir devagar olhando ao redor, parar em qualquer lugar, olhar e esperar alguma coisa acontecer, qualquer imprevisto bom, que pedi em pensamento. fui à uma locadora sem idéia de que filme traria, embora tenha listas e listas de filmes a ver. depois fui a um supermercado 24h, desses estilo magazine, que tem de tudo. gosto bastante desses mercados, nunca estão muito cheios e eu adoro olhar prateleiras de qualquer coisa, mesmo sem interesse em comprar. daí que encontrei uma amiga de faculdade com quem tive e tenho pouco contato mas por quem tenho carinho, que sempre pareceu recíproco. estavam ela, a mãe e a irmã, que conheci ali. conversamos, conversamos, gente simpática, e de lá fomos jantar no japonês. jantamos, rimos, combinamos pedaladas e visitas para os próximos dias e nos despedimos agradecidas umas às outras com dizeres de "adorei te conhecer", "adorei de encontrar", "obrigada", trocando endereços e prometendo não deixar o contato nos escapar. eu adorei, muito mesmo, por várias razões: por ter um pedido singelo atendido, pelo contato agradável com gente gostosa de conversar, por mais um reencontro, pela quebra da rotina. mas eu desconfio que foi mais especial porque foi inesperado, porque foi esse presente do "acaso" (aspas em deferência ao Engenheiro das coincidências) para esse dia, porque veio me surpreender. a companhia delas foi maravilhosa e mesmo amando o contato que tivemos e poderemos ter daqui pra frente, eu confesso que lá no fundo de mim não tenho o mesmo entusiasmo em procurá-las como tive em encontrá-las por acaso, como se* o melhor de tudo eu já tivesse desfrutado.
*porque eu seu sei que não.


hoje um vizinho novo veio aqui em casa. ele se mudou aqui pra frente há uns 2 meses e como é de praxe, dona Nenê, a senhora minha mãe, estabeleceu contato logo, toda querida como ela é. o papo deles está dando tão certo que ele já prometeu que vai cuidar da infestação de cupim que está tendo em casa e outro dia subiu lá no telhado para trocar umas telhas quebradas que geraram goteira aqui (é, casa antiga é assim). ele, gente boníssima, todo solícito e tal. aí ele viajou no fim de ano, avisou a mãe e tudo. enquanto ele estava viajando, ela viajou, foi pro Rio ver a vó. ele deve ter chegado esses dias e hoje ele veio aqui saber se estava tudo bem porque faz dias que ele não vê a vizinha e ficou preocupado se a tragédia da chuva no Rio tinha afetado alguém da família. perguntou se a goteira parou e disse que qualquer coisa ele está ali. me deu até vontade de abraçar.

 Enriqueta e Felini, de Liniers. Quase existem mesmo, de tão fofos.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

calou fundo

"Antes de virar a página, você precisa lê-la"
(Baltasar Garzón, juiz espanhol)


Um outro modo de eu entender porque tanta coisa ainda não mudou por aqui.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011



"Poison & Wine is a musical snapshot about the dichotomy of love - that while it can be the thing that destroys you, it can also be the very same thing that beckons and builds you. JP and I are both married have been for several years now - and we got to talking one day about what a tug and pull our individual relationships can be. The longer you know someone - and the longer you allow someone to know you - the more the light and shadows inside each person become more vivid. This song was our attempt at being as brutally honest about the dangerous and beautiful process of knowing and being known." (Joy Williams, The Civil Wars)

morri.

e o que a gente faz com todo amor que se acumula diariamente dentro do peito?
quero me derramar.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

silêncio

Os silêncios me praticam 
(Manoel de Barros)

Viver é afinar o instrumento
De dentro pra fora
De fora pra dentro
A toda hora
A todo momento
De dentro pra fora
De fora pra dentro

Porque...

Tudo é uma questão de manter
A mente quieta
A espinha ereta
E o coração tranquilo

A toda hora
A todo momento
De dentro pra fora
De fora pra dentro
(Walter Franco)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

por dentro

quando a paralisação não vem da apatia, vem do congestionamento.
que maravilha.