arte de Valéria C.
Andando por aí, por mim e nEle, observando, absorvendo. Tudo é sempre novo - e estranho - aqui e no mundo. Notas de espanto, porque todo dia nasço.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
diagnóstico
Eu quis saber de uma vez por todas se essa coisa que eu sou era defeito de caráter mesmo ou se era doença. Só queria saber se tinha cura, solução. E daí que, depois de uns 10 anos perdida pra dentro, eu descubro que nunca foi depressão o nome do que eu tinha. Pelo menos, não a princípio. É ansiedade.
Me emocionei ao entender mais detalhes sobre fobia social e ver na descrição de uma doença meu comportamento esmiuçado, minha vida inteira ali relatada em inumeráveis situações que me voltam à mente como relâmpagos, vividas desde a mais tenra idade. A mais tenra.
Um medo irracional - mas que em alguns momentos me convenci serem justificáveis - de ser avaliada e reprovada em quase todas as situações sociais de desempenho. A insegurança patológica.
Todas as vezes em que tive sucesso em algo que fiz ou estive em posição de destaque na vida eu tropecei no passo seguinte e estraguei tudo EXATAMENTE POR CAUSA DISSO. Ser bem-sucedida sempre me foi mais sofrido, porque exageradamente estressante, do que o contrário. Alto índice de evitação da vida, porque qualquer pequeno empreendimento é sempre um desafio grande demais, aparentemente invencível.
Meu Deus.
Senhor.
Por quantos médicos eu já passei? Por quantos psicólogos? E ninguém percebeu do que eu sofria realmente. De repente, eu olho para trás e consigo compreender quase todas a escolhas que eu fiz e que eu mesma não entendia à época.
E 2010 marcando meu tempo, quiçá fechando um ciclo. Meus 30 anos.
Coroados com mais um marcante email do meu pai:
"(...) HOJE (...) SOLICITEI A DEUS, O GRANDE LIBERTADOR DOS GRILHÕES QUE NOS ESCRAVIZAM (PSICOLOGICOS), QUE VENHA A DAR A VC UMA LIBERDADE DE SER ÚNICA, MINHA FILHA.
SEI QUE PASSAMOS POR DIVERSOS PERIODOS DE DESERTO (ESCRAVIZAÇÃO); PROFETIZO NESTE MOMENTO NA SUA VIDA QUE VC ESTÁ E SEMPRE SERÁ LIVRE EM NOME DE DEUS (LEVANTA E ANDA EM NOME DE JESUS!!)
(...)
TE AMO (...) EM NOME DE DEUS, TENHO FÉ QUE IREMOS VIVER UM NOVO TEMPO EM NOSSAS VIDAS."
Amém, pai. Amém, Pai.
Me emocionei ao entender mais detalhes sobre fobia social e ver na descrição de uma doença meu comportamento esmiuçado, minha vida inteira ali relatada em inumeráveis situações que me voltam à mente como relâmpagos, vividas desde a mais tenra idade. A mais tenra.
Um medo irracional - mas que em alguns momentos me convenci serem justificáveis - de ser avaliada e reprovada em quase todas as situações sociais de desempenho. A insegurança patológica.
Todas as vezes em que tive sucesso em algo que fiz ou estive em posição de destaque na vida eu tropecei no passo seguinte e estraguei tudo EXATAMENTE POR CAUSA DISSO. Ser bem-sucedida sempre me foi mais sofrido, porque exageradamente estressante, do que o contrário. Alto índice de evitação da vida, porque qualquer pequeno empreendimento é sempre um desafio grande demais, aparentemente invencível.
Meu Deus.
Senhor.
Por quantos médicos eu já passei? Por quantos psicólogos? E ninguém percebeu do que eu sofria realmente. De repente, eu olho para trás e consigo compreender quase todas a escolhas que eu fiz e que eu mesma não entendia à época.
E 2010 marcando meu tempo, quiçá fechando um ciclo. Meus 30 anos.
Coroados com mais um marcante email do meu pai:
"(...) HOJE (...) SOLICITEI A DEUS, O GRANDE LIBERTADOR DOS GRILHÕES QUE NOS ESCRAVIZAM (PSICOLOGICOS), QUE VENHA A DAR A VC UMA LIBERDADE DE SER ÚNICA, MINHA FILHA.
SEI QUE PASSAMOS POR DIVERSOS PERIODOS DE DESERTO (ESCRAVIZAÇÃO); PROFETIZO NESTE MOMENTO NA SUA VIDA QUE VC ESTÁ E SEMPRE SERÁ LIVRE EM NOME DE DEUS (LEVANTA E ANDA EM NOME DE JESUS!!)
(...)
TE AMO (...) EM NOME DE DEUS, TENHO FÉ QUE IREMOS VIVER UM NOVO TEMPO EM NOSSAS VIDAS."
Amém, pai. Amém, Pai.
domingo, 21 de novembro de 2010
sábado, 20 de novembro de 2010
porque sou Zumbi
Consciência negra não é apenas uma questão política pra mim, é um assunto pessoal, porque é parte importante da minha formação, da minha identidade. Fui criada para ter essa consciência e agir de acordo com ela, não para ignorá-la e me abster de posicionar-me. Sou filha, neta e bisneta de negros e a cor da pele fez a diferença na história da minha família e na vida de cada um de nós. Fomos escravos, mucamas, ama-de-leite, lavadeira, operário e... médico. Meu pai é o Zumbi da família, o primeiro dela a quebrar o ciclo da servidão e a escrever uma história diferente da prevista. Cresci ouvindo suas histórias de luta e vitória contra cada barreira que o preconceito lhe impôs. E foi só depois dele que irmã, primos, tios, sobrinhos e filhos começaram a fugir também. Somos uma família de quilombolas, uns mais livres que outros, uns mais conscientes que outros, mas todos na luta, porque a resistência continua.
Zumbi foi morto em combate em 20 de novembro de 1695 e sua cabeça foi exibida em praça pública a fim de coibir novas revoltas e fugas entre os escravos. Mas o efeito foi oposto, despertando em muitos a consciência de que era preciso lutar contra a escravidão e as desigualdades como Zumbi ousou fazer, e permanece até os dias de hoje.
Zumbi foi morto em combate em 20 de novembro de 1695 e sua cabeça foi exibida em praça pública a fim de coibir novas revoltas e fugas entre os escravos. Mas o efeito foi oposto, despertando em muitos a consciência de que era preciso lutar contra a escravidão e as desigualdades como Zumbi ousou fazer, e permanece até os dias de hoje.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
sussurros II
você viu ela chegando? dessa vez eu não percebi, te juro. veio mansa, disfarçadamente. porque se eu vejo ela de longe dou logo um jeito de escapar, você sabe. demorou, mas aprendi.
nos conhecemos há anos, mas ela não entende que não somos amigas.
agora é todo aquele trabalho para me livrar dela pela enésima vez...
melhor começar rápido antes que ela se acomode, porque aí o trabalho é dobrado.
me ajuda, vai. com você vai ser bem mais fácil.
e se alguma vez você a vir se aproximando antes de mim, me avisa, por favor!
porque eu vou ter que vigiar pro resto da vida.
nos conhecemos há anos, mas ela não entende que não somos amigas.
agora é todo aquele trabalho para me livrar dela pela enésima vez...
melhor começar rápido antes que ela se acomode, porque aí o trabalho é dobrado.
me ajuda, vai. com você vai ser bem mais fácil.
e se alguma vez você a vir se aproximando antes de mim, me avisa, por favor!
porque eu vou ter que vigiar pro resto da vida.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Para ser grande
Reli hoje essa poesia que me remete a uns 6 anos atrás, quando eu me alimentava quase diariamente das palavras de F. Pessoa, época em que eu me identificava demais com Álvaro de Campos no seu supremo cansaço de sentir tudo. Me lembro bem de quando a ouvi declamada por Maria Bethânia e fiquei estupefata. Saber que esse é um princípio biblico torna-a ainda mais tocante.
Mais um reencontro desses dias tão diferentes: eu e a poesia.
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Ricardo Reis
(Fernando Pessoa)
Mais um reencontro desses dias tão diferentes: eu e a poesia.
domingo, 7 de novembro de 2010
chorei junto
"Esta fotografia é eloquente por si só. Vale por um discurso inteiro, ou por um paper do Ipea. Por esta imagem pode-se compreender um pouco dos 83% de popularidade de Lula hoje.
O nome desta senhora, ex-favelada do Rio de Janeiro, é Corina Edelvina Bento. Ela chora de emoção e sacode as chaves de sua casa nova, ao mesmo tempo que é beijada pelo presidente Lula. Dona Corina morava numa favela em precárias condições, e agora é uma das beneficiárias do programa Minha Casa, Minha Vida.
A fotografia é tão (politicamente) persuasiva que não foi publicada em nenhum jornal do Brasil, por razões óbvias. Foi publicada - acreditem - no The Wall Street Journal, de propriedade do grupo midiático de Rupert Murdoch, que também detém o controle da famigerada Fox News, apoiadores do republicanismo conservador e do Tea Party.
A fotografia foi tirada no dia 25 de outubro último, por Felipe Dana da AP."
Cristóvão Feil
tive que postar. porque não é só política pra mim, são pessoas. e meu coração também.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
o bonde da História
Daqui a uns 50 anos é provável que perguntem: "o que estava fazendo quando foi eleita a primeira mulher presidente do Brasil?" E eu vou lembrar que...
A campanha foi das mais difíceis que eu já havia vivido até então, porque foi a eleição da minha primeira despedida emocional da política (porque agora entendi que esse processo durará muito mais tempo do que eu imaginava). Percebi menos sexismos do que eu imaginava ver, talvez porque duas das melhores candidatas eram mulheres, o que deve ter calado a voz do mais cego machismo. E eu pude votar nas duas.
Os temas religiosos pautaram grande parte dos debates e isso me assustou demais. Vislumbrei o futuro já predito bem diante dos meus olhos.
Foi a eleição em que eu esbocei uma tentativa, ainda insegura e tímida, de rever meu posicionamento político na sua raiz para conciliá-lo com a minha fé racional, embora tenha terminado o período sem conseguir fechar a questão sobre isso. Sobram elucubrações, profundas reflexões, perguntas sem respostas e nada conclusivo até então. Meu ser em construção.
E eu quase não tinha com quem conversar a respeito disso tudo, ninguém ao meu redor para compartilhar minhas impressões e interrogações, porque parecia que ninguém entendia. Foi minha eleição mais solitária, sofrida e mais interneteira que a de 2006.
O dia de eleição foi inteiro chuvoso, em meio a um fim-de-semana feriado, o que deve ter contribuído para mais uma alta taxa de abstenção. Veio bastante gente almoçar aqui em casa e eu estava irritadiça, inquieta, mal consegui sociabilizar, talvez pelo isolamento político em que me encontrava. Quando eu fui votar não havia ninguém na minha seção, não encontrei ninguém conhecido, a chuva estava forte, foi muito rápido, mas eu senti de novo aquela emoçãozinha ali, coisa que não sei explicar de onde vem, de quem herdei, quem me ensinou.
Não quis acompanhar a apuração, ao contrário do que fiz no primeiro turno, num tremendo esforço para não me envolver ainda mais com tudo isso vendo as comemorações, os comentários, as análises, etc., que me fisgariam pelo fígado, como sempre, porque decidi que simplesmente não quero mais taquicardizar por causa de política. Depois de beber uma taça de vinho(!) propositadamente, dormi até o dia seguinte. Mas bastou que eu conferisse as notícias depois para meus olhos marejarem enquanto tentava lê-las. Acho que nunca serei indiferente.
A primeira mulher presidente do Brasil. Quantas barreiras foram transpostas para isso ser possível? Quantos nãos expressos ou implícitos tiveram que ser ignorados para ela chegar até lá? De quantas pequenas vitórias é feita essa vitória?
Enquanto o bonde da História passa na estação da sua vida, o que você faz? Sobe? Pára para assisti-lo passar da sua janela? Ou nem o percebe, tão ocupado que estava com seus afazeres?
De sociólogo para operário, de operário para mulher.
Um arrepio me dá saber que vivo um momento histórico. E que, de alguma forma, eu participei disso.*
Eu subi.
*com inúmeras contribuições de Mary W., que já há um bom tempo tem me feito perceber por essa ótica o tempo em que vivemos. obrigada.
update 07.11: acaba de me ocorrer, um pouco tardiamente, que essa vitória, em se tratando da questão de gênero, não foi pura, feminista na essência, e que talvez tenha sido, digamos, maculada por ter sido, desde a sua origem, uma candidatura proposta, avalizada e por todo o tempo sustentada pela forte figura de um homem, considerado por muitos o grande ganhador desse pleito, a exemplo da Kishner na Argentina. hm...
A campanha foi das mais difíceis que eu já havia vivido até então, porque foi a eleição da minha primeira despedida emocional da política (porque agora entendi que esse processo durará muito mais tempo do que eu imaginava). Percebi menos sexismos do que eu imaginava ver, talvez porque duas das melhores candidatas eram mulheres, o que deve ter calado a voz do mais cego machismo. E eu pude votar nas duas.
Os temas religiosos pautaram grande parte dos debates e isso me assustou demais. Vislumbrei o futuro já predito bem diante dos meus olhos.
Foi a eleição em que eu esbocei uma tentativa, ainda insegura e tímida, de rever meu posicionamento político na sua raiz para conciliá-lo com a minha fé racional, embora tenha terminado o período sem conseguir fechar a questão sobre isso. Sobram elucubrações, profundas reflexões, perguntas sem respostas e nada conclusivo até então. Meu ser em construção.
E eu quase não tinha com quem conversar a respeito disso tudo, ninguém ao meu redor para compartilhar minhas impressões e interrogações, porque parecia que ninguém entendia. Foi minha eleição mais solitária, sofrida e mais interneteira que a de 2006.
O dia de eleição foi inteiro chuvoso, em meio a um fim-de-semana feriado, o que deve ter contribuído para mais uma alta taxa de abstenção. Veio bastante gente almoçar aqui em casa e eu estava irritadiça, inquieta, mal consegui sociabilizar, talvez pelo isolamento político em que me encontrava. Quando eu fui votar não havia ninguém na minha seção, não encontrei ninguém conhecido, a chuva estava forte, foi muito rápido, mas eu senti de novo aquela emoçãozinha ali, coisa que não sei explicar de onde vem, de quem herdei, quem me ensinou.
Não quis acompanhar a apuração, ao contrário do que fiz no primeiro turno, num tremendo esforço para não me envolver ainda mais com tudo isso vendo as comemorações, os comentários, as análises, etc., que me fisgariam pelo fígado, como sempre, porque decidi que simplesmente não quero mais taquicardizar por causa de política. Depois de beber uma taça de vinho(!) propositadamente, dormi até o dia seguinte. Mas bastou que eu conferisse as notícias depois para meus olhos marejarem enquanto tentava lê-las. Acho que nunca serei indiferente.
A primeira mulher presidente do Brasil. Quantas barreiras foram transpostas para isso ser possível? Quantos nãos expressos ou implícitos tiveram que ser ignorados para ela chegar até lá? De quantas pequenas vitórias é feita essa vitória?
Enquanto o bonde da História passa na estação da sua vida, o que você faz? Sobe? Pára para assisti-lo passar da sua janela? Ou nem o percebe, tão ocupado que estava com seus afazeres?
De sociólogo para operário, de operário para mulher.
Um arrepio me dá saber que vivo um momento histórico. E que, de alguma forma, eu participei disso.*
Eu subi.
*com inúmeras contribuições de Mary W., que já há um bom tempo tem me feito perceber por essa ótica o tempo em que vivemos. obrigada.
update 07.11: acaba de me ocorrer, um pouco tardiamente, que essa vitória, em se tratando da questão de gênero, não foi pura, feminista na essência, e que talvez tenha sido, digamos, maculada por ter sido, desde a sua origem, uma candidatura proposta, avalizada e por todo o tempo sustentada pela forte figura de um homem, considerado por muitos o grande ganhador desse pleito, a exemplo da Kishner na Argentina. hm...
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