Encontrada ali, jogada num velho baú de sonhos e lembranças, uma pequena caixa de pandora pessoal, esta carta.
"Foi a primeira vez que voltei para ti sem alegria, embora seja eu quem tenha te chamado de volta.
Sabes, já não me sinto amada por ti há algum tempo, nunca mais senti aquele amor que deu-me vida. E se ainda estou contigo é só porque um dia, quando amamo-nos mágica e lindamente, tu me amaste e porque este amor passado me sustém e nele tenho fé, não no futuro. É ele que me mantém em ti. Porque há tempos descobri que o amor que eu sinto já não é o bastante para isso. Não por ser pouco, porque não é, ele é a minha vida, mas por eu ainda precisar demasiado do teu, meu sangue, este que não tenho e que por isso tanto me faz doer.
Nunca disse que não te amo mais. Nunca direi. Sempre te amarei, sinto. Mas não tenho mais sido feliz em nosso relacionamento. Nunca mais fui. Nunca mais me senti viva. Porque nunca mais vi-te querendo me fazer feliz, atento ao que sinto. A invisibilidade é mais cortante à alma do que jamais pude imaginar. Autismo, dirás. Amo só a mim mesma, dirás. E eu digo, não quando me amavas. Então tu me fazias inteira para poder te amar corajosamente, sem medida, sem receios, sem restrições.
Sei que não me vais responder a nada disso. Nunca rechaças nada do que digo, não dialogas ou brigas, nada, apenas ignoras, o que sempre confirma tua indiferença. E sabemos o quanto tenho estado a te chamar por todo esse tempo em que estamos juntos. Chamo-te em vão. Nosso relacionamento não amadurece, não crescemos lado a lado. Tu não vens quando chamo.
Sabes, meu sonho era me responderes com propostas de amor. Ou mesmo queixas de amor. Eu amaria beber tuas lágrimas, se houvesse, ouvir teu lamento, lamber tuas feridas e dizer-te em promessa que tudo ia ficar bem, melhor do que antes, sempre melhor, e dar minha vida para cumpri-la, com genuína vontade de nos tornar um, de crescermos como um e não nos separando cada vez mais a cada tristeza guardada, a cada ferida não tratada. Sem que menosprezes o que digo através de um gracejo para diluir tudo o que te desagrada.
Mas pareces não almejar crescer no amor, através do amor, por amor. Dares-te desprendido como eu anseio intensamente voltar a fazer mas não tenho mais coragem. Te amar loucamente, jogar-me no abismo desse sentimento certa de que cairei em ti. Tu pareces querer apenas que eu me enquadre a ti. Se eu conseguir, obediente, ficas comigo, se não, fim. E não crescemos, não ultrapassamo-nos, simplesmente nos acomodamos no amor.
Diz-me, tu consegues alcançar-me no horizonte? Tu ainda caminhas comigo nessa direção ou seguimos sós? Ainda queres ultrapassar aquela fronteira nunca transposta ambos fundidos um no outro? Habitar a vertigem do dia, onde só raras e privilegiadas almas amantes conseguiram chegar? E voar o vôo eterno dos livres, apenas nós dois? Eu não quero nada senão tudo. Apenas isso espero do amor. O nosso, nenhum outro.
Tua sempre"
2 comentários:
teu, resempre.
Latitude
Bonita carta... Senti como tivesse sido escrita por alguem que amei... e magoei com indiferenca... porque antes fui tambem magoado!!! Coisas da vida a dois.
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