terça-feira, 2 de novembro de 2010

o bonde da História

Daqui a uns 50 anos é provável que perguntem: "o que estava fazendo quando foi eleita a primeira mulher presidente do Brasil?" E eu vou lembrar que...
A campanha foi das mais difíceis que eu já havia vivido até então, porque foi a eleição da minha primeira despedida emocional da política (porque agora entendi que esse processo durará muito mais tempo do que eu imaginava). Percebi menos sexismos do que eu imaginava ver, talvez porque duas das melhores candidatas eram mulheres, o que deve ter calado a voz do mais cego machismo. E eu pude votar nas duas.
Os temas religiosos pautaram grande parte dos debates e isso me assustou demais. Vislumbrei o futuro já predito bem diante dos meus olhos.
Foi a eleição em que eu esbocei uma tentativa, ainda insegura e tímida, de rever meu posicionamento político na sua raiz para conciliá-lo com a minha fé racional, embora tenha terminado o período sem conseguir fechar a questão sobre isso. Sobram elucubrações, profundas reflexões, perguntas sem respostas e nada conclusivo até então. Meu ser em construção.
E eu quase não tinha com quem conversar a respeito disso tudo, ninguém ao meu redor para compartilhar minhas impressões e interrogações, porque parecia que ninguém entendia. Foi minha eleição mais solitária, sofrida e mais interneteira que a de 2006.
O dia de eleição foi inteiro chuvoso, em meio a um fim-de-semana feriado, o que deve ter contribuído para mais uma alta taxa de abstenção. Veio bastante gente almoçar aqui em casa e eu estava irritadiça, inquieta, mal consegui sociabilizar, talvez pelo isolamento político em que me encontrava. Quando eu fui votar não havia ninguém na minha seção, não encontrei ninguém conhecido, a chuva estava forte, foi muito rápido, mas eu senti de novo aquela emoçãozinha ali, coisa que não sei explicar de onde vem, de quem herdei, quem me ensinou.
Não quis acompanhar a apuração, ao contrário do que fiz no primeiro turno, num tremendo esforço para não me envolver ainda mais com tudo isso vendo as comemorações, os comentários, as análises, etc., que me fisgariam pelo fígado, como sempre, porque decidi que simplesmente não quero mais taquicardizar por causa de política. Depois de beber uma taça de vinho(!) propositadamente, dormi até o dia seguinte. Mas bastou que eu conferisse as notícias depois para meus olhos marejarem enquanto tentava lê-las. Acho que nunca serei indiferente.

A primeira mulher presidente do Brasil. Quantas barreiras foram transpostas para isso ser possível? Quantos nãos expressos ou implícitos tiveram que ser ignorados para ela chegar até lá? De quantas pequenas vitórias é feita essa vitória?
Enquanto o bonde da História passa na estação da sua vida, o que você faz? Sobe? Pára para assisti-lo passar da sua janela? Ou nem o percebe, tão ocupado que estava com seus afazeres?

De sociólogo para operário, de operário para mulher.
Um arrepio me dá saber que vivo um momento histórico. E que, de alguma forma, eu participei disso.*
Eu subi.

*com inúmeras contribuições de Mary W., que já há um bom tempo tem me feito perceber por essa ótica o tempo em que vivemos. obrigada.

update 07.11: acaba de me ocorrer, um pouco tardiamente, que essa vitória, em se tratando da questão de gênero, não foi pura, feminista na essência, e que talvez tenha sido, digamos, maculada por ter sido, desde a sua origem, uma candidatura proposta, avalizada e por todo o tempo sustentada pela forte figura de um homem, considerado por muitos o grande ganhador desse pleito, a exemplo da Kishner na Argentina. hm...

3 comentários:

mary w disse...

ah, obrigada pela referencia. adorei o balanço q vc fez.

bee disse...

olha, corina, nesse ponto divergimos.
eu já votei no PT, mas agora não voto mais.
e por êne motivos, sabe...
quanto a ter uma mulher no poder, não vejo muita vantagem também.
todas as minhas amigas que são "o cabeça" do lar são muito infelizes.
eu gostaria de "levar um plá" com a mulher que inventou essa história de queimar sutiã em praça pública.
o que foi mesmo que ganhamos com isso?
agora temos dupla jornada de trabalho, homens que se acostumaram a "dividir a conta" e eu não acho isso lá muita vantagem, não.
mas creio que, como uma gangorra, a coisa vai se equilibrar com o passar do tempo.
é normal que penda pra um lado e depois pra outro, até encontrar o caminho.
tomara.

corina disse...

eu te entendo, bee. não divergimos tanto quanto parece. eu AINDA voto no PT, mas é isso que está em xeque hoje em mim, como escrevi no post.
bem, há 1milhão de posições feministas diferentes e eu também não topo com o feminismo do sutiã na fogueira, sabe? meu manual de igualdade de gêneros é a Palavra: unidade na diversidade, as diferenças são/devem ser complementares, não conflitantes e excludentes, "hierarquizantes", etc.
é que, ao meu ver, existe uma luta legítima nessa questão, o que eu quero é achar o ponto de intersecção entre ela e a fé no Deus Criador. posso estar errada, mas eu sinto ele que existe.
mas tô só engatinhando ainda. em construção.
ah, eu tb costumo olhar o movimento das coisas, dos comportamentos, pensamentos, etc como num pêndulo. vira-e-mexe falo isso aí que vc escreveu no fim. uma hora chegamos ao equilíbrio. ;-) bjos.