Intimidade. Privacidade. Desde que percebi que não me sentia bem quando vista, conhecida(supostamente) e, por consequência, pensada, provavelmente julgada e analisada por outros olhos, passei a tentar me preservar. Sinto-me segura guardada em mim, sendo só minha. Gosto de ser meu segredo. Como se só aqui fosse ou pudesse ser o meu lugar, ainda que muitas vezes desconfortável. O contrário, expôr-me, quase me apavora, é como estar nua diante de todos, é desconcertante, é mesmo incômodo, aflitivo, vexatório até. De modo que eu tento ficar sempre mais dentro de mim do que fora e lanço mão de todos os expedientes que tenho ao alcance para evitar a exposição, para evitar que me vejam, me saibam. Sim, ter um blog parece uma contradição, mas só parece. É um exercício, por ser espelho, e é também um encontro.
Infelizmente, há momentos em que eu me escapo, coisas que me denunciam sem eu querer. Todos nós nos denunciamos o tempo todo, eu sei. Como conviver sem expôr-se minimamente? Impossível. Ainda assim, vivo tentando aprimorar esta 'arte', na qual me iniciei há algum tempo(porque antes, bem antes, eu me escancarava mesmo) e por isso, algumas vezes, sem intenção, entrego-me facilmente. É verdade que nem sempre há gente ao redor tão atenta ao que deixo escapar como eu estou atenta ao rastro que deixam de si mesmos por onde passam e ao meu próprio. Não importa, me irrita ter errado, me contrariado, não ter evitado, não ter-me pensado melhor antes de ser em público. Me irrita e me preocupa seriamente ter-me entregado, mesmo que num detalhe (não, eu não subestimo os detalhes, sempre os mais delatores!). Na verdade, me amedronta.
No entanto, contraditoriamente, eu sinto uma imensa vontade, um profundo desejo de me dar, de me revelar. Sinto-o fortemente. E esse é o meu amor: querer pertencer inteiramente, entregar todo meu ser e permitir ser conhecida inteira como sou, sem disfarces, sem máscaras, sem enfeites. Sonho esta liberdade de estar de alma nua sem receios, sem preocupação, sem temores, sem armaduras.
Doar-me e revelar-me é meu jeito de amar alguém. Dedicar-me inteiramente a uma causa, a uma missão, é meu jeito de amar a vida. Não ser mais minha, entregar-me, esquecer-me, é como amo a Deus.
Se o que sou em sonhos, expectativas, lembranças, sentimentos, pensamentos, forma e conteúdo, é tudo que tenho, esse é, então, o meu tesouro e por isso o guardo com todo cuidado. Estudo-o, burilo-o, protejo-o. É só que tenho a oferecer. Não deve ser dado nem mesmo mostrado a qualquer um que passe ou esteja ao redor. É meu. Não me desperdiço.
2 comentários:
Viver é uma exposição.
Disto sei.
Penso nós nos derramamos em sentimentos e expressões, risos e maluquices, daí o espanto e curioso olhar do público.
Viver é uma explosão, ñ há dúvida.
Ê, Cyn... Disseste tudo, non?
"Viver é um exposição".
Obrigada.
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