Eu acho que existe mesmo uma idade de se ter a própria casa. E pelo que tenho sentido, não se deve em nada a imposições sociais, a nenhuma cobrança por demonstrações de independência, autonomia, maturidade, essas coisas que esperam de nós a uma certa altura da vida. É um sentimento que surge por dentro mesmo, devagar, à medida que viramos 'gente grande'. Eu sinto isso. Sinto uma necessidade muito grande de ter o meu lar (adoro essa palavra), do meu jeito, sob a minha responsabilidade, administrado e cuidado por mim. Sinto essa precisão* de fazer um lugar pra mim no mundo, sobretudo por eu ser tão caseira, tão mais para dentro que para fora. Porque aqui com a mãe nada é do meu jeito e nem o posso impôr. Nem devo, embora, às vezes, em pequenas coisas (bem, um lar é todo feito de pequenas coisas) acabe por fazê-lo e de forma meio atrapalhada. Então eu fico querendo montar um quarto-mundo. Vivo sonhando com o quarto que eu espero ter enquanto viver aqui, antes da minha casa existir. Eu o monto e remonto infinitas vezes na mente. Como faço com toda a minha vida, aliás. Mas aí esbarro na porta fechada do dia: la plata. E vem-me a sensação de ser interrompida, dessa porta ainda fechada para tantas pequenas realizações que me fariam feliz.
Assim, há que se ter paciência. Nada de pressa. Hoje eu compro só a estante nova. E já fico bem feliz.
* 'precisão' parece mais forte, maior que 'necessidade'
Um comentário:
Ahh quarto-mundo.
Cheio de enfeites, papéis escondidos, pinturas e toques só teus, hó. O futuro mundo ainda no velho quarto.
Cá ñ se faz tão diferente, mas o quarto seria para dois...
:?
one kiss*
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