A mãe voltou de viagem hoje, depois de 20 dias no Rio com a vó, que estava hospitalizada. Acabou de ir dormir depois de conversarmos por 3 horas madrugada adentro. Rimos, choramos, esboçamos planos para amanhã e para o ano.
Faz tempo que ela tem viajado com frequência, mas dessa vez foi diferente pra mim (e também pra ela, mas por outros motivos). Primeiro porque, diferente de outras vezes, em que eu apenas amava ficar sozinha, eu senti muito a falta dela dessa vez. Em diversos momentos eu realmente quis, pela primeira vez, que ela estivesse aqui para eu poder chorar as minhas dores no seu colo, mesmo que fosse para ouvir o conselho mais óbvio. Sempre afogo as mágoas em silêncio e a mãe não costuma ser lembrada por mim nesses momentos. Acho que foi a primeira vez que, além de reconhecer que ainda preciso, eu quis a ajuda dela.
Mais: foi a primeira vez que senti como imperativo o desejo de retribuir a ela todo o cuidado, todo o desvelo, toda a dedicação, tudo o que ela fez e faz por mim. Pela primeira vez o amor pela minha mãe, e por tabela, pelo meu grande e quase distante pai, me fez querer sair do meu buraco sem fundo. Foi a primeira vez que esse vínculo foi, dentro de mim, o único fio restante e forte o suficiente que me religou à vida. A primeira vez que eu quis ser apenas por causa deles. Como se no resultado final de toda a matemática existencial restasse apenas essa dupla.
Então, me dei conta: parece que já fiz totalmente as pazes com eles. O perdão.
Mais uma obra silente e misteriosa de Deus.
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