domingo, 8 de maio de 2011

carro de estimação (ou como transformo tudo em afeto)

Agora eu tenho isso: me apeguei a um carro velho, o nosso carro, exatamente como o meu irmão. A mãe quer vendê-lo e eu fico impedindo-a até que - em breve, espero - eu possa comprá-lo. Eu mesma o lavo como se fosse dar carona pro Papa. Compro acessórios, pecinhas, produtos de toda sorte pra deixá-lo "jovem", bonitão, pra valorizá-lo, pra demonstrar meu cuidado.
E, claro, como é de praxe por aqui, construí toda uma história emocional com ele.

Foi com ele que os três filhos aprendemos a dirigir. Há lá marquinhas dos erros de cada um na sua lataria.
Fomos seus únicos donos. Ele é da família.
Ele foi minha casinha nos dias mais corridos de anos atrás, quando nele eu dormia, lanchava, estudava e cortava a cidade de um lado a outro entre casa, faculdade e trabalho.
Com ele descobri como adoro dirigir e meu desejo de pegar estrada pra longe, passeando por aí, só ganhou mais força com o tempo. Nosso primeiro trecho de autoestrada foi de 17km, depois de 40km e cada vez mais longe.
Nele refleti bastante sobre nosso estilo de vida, o isolamento urbano de cada um, sobre a agressividade manifestada no volante por muitos e às vezes por mim, a minha pressa imotivada, e passei até a exercitar minha mansidão ao dirigir devagar.
Com ele tive mais oportunidades de ser útil, levando e trazendo gente pra lá e pra cá, socorrendo vizinhos da espera quase eterna no ponto de ônibus aqui do bairro, exercitando e aperfeiçoando à força a cara-de-pau na hora de pedir uma ajuda pra "gasosa"...
Com ele fiquei até mais tarde com os amigos, pude aproveitar mais sem culpas ou preocupações.
Já sei seus macetes todos e seus defeitinhos só o deixam mais personalizado. As portas traseiras que emperram e ninguém consegue abrir sozinho, o cinto-de-segurança do carona que só destrava na minha mão, a gambiarra na porta do porta-mala que não ficava mais em pé sozinha.
Sei como ninguém qual é o limite da reserva do tanque de combustível e aprendi com ele que andando devagar a gente vai mais longe, literalmente.

Esse carro me leva aonde eu precisar, gasta o básico referente à manutenção. Não enxergo motivo forte o bastante, que não seja uma mera convenção consumista, para me convencer a trocá-lo por outro agora. Daí que, além de tudo, com ele, um carro de 1998, eu manifesto, ainda que - convenhamos - timidamente, meu anticapitalismo, minha resistência ao consumismo, ao que dita o mundo sobre o que é viver bem, ser bem-sucedido, ser moderno, enfim, sobre o que é importante.
E isso tudo tem alguma coisa com o meu pai que eu não sei bem o que é, mas sei que toda vez em que eu estou lavando-o, e muitas vezes quando manobrando (o pai é mestre), quando inventando novos caminhos para chegar no mesmo lugar (a bússola intuitiva do pai nunca erra), eu lembro dele. Acho que é porque eu o ajudava às vezes a lavar o carro aqui em casa quando era pequena, naquela mesma garagem. E, talvez, também porque o pai é desses que se orgulha de ter algo antigo e bem cuidado, o que carrego comigo também. Aí olho pro carro, faço planos em mantê-lo bem cuidado, dirijo-o e penso, lá no fundo do meu inconsciente: o pai vai gostar*.

*Eu dou tantas voltas na vida e no pensamento, faço e planejo tantas coisas diferentes para, no fim, chegar (ou partir do) no mesmo lugar, esse amor por meu pai.

2 comentários:

C. Adalgisa disse...

Mi irmão, de onde você tirou tanta coisa bonita pra dizer do car. Não é só em você tá, eu também me apeguei no vermelho haha, cera, lustra móveis, amizade no posto haha, tudo pra conservar esse bem na nossa mão rs. E no final isso tudo também é pra gente, fica com você. Aquela fase semi irresponsável passou, a direção agora é um ato. Você sabia que eu lembro de quando suas coisas ficavam no carro? Até toalha estendida haha. Ho Mi...
Vamos ser modernos só depois da chuva, novo precisa ser nosso amor pelas pessoas e não em coisas novas. Disso todo pai gosta também. Bjos 4ever.

corina disse...

Ah, Gisa, e como eu pude esquecer das amizades no posto! Os frentistas gente boa dando dicas, ensinando e aceitando meus 10ão por aí! haha
E quantas despedidas infindáveis na frente da sua casa dentro dele, conversas frenéticas, muitas confidências... Já fazer esse acréscimo no post. Bjo em vc.